quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Minha querida Rouba-Maridos, Minha cara esponja-de-rum


Sempre achei a idéia do suicídio algo estimulante à vida. Essa possibilidade de libertação deixa a vida tão leve, até ridícula, que ela se torna muito mais fácil. Afinal de contas...podemos sempre nos matar! Enrique Vila-Matas novo amante de meu irmão que ele gentilmente compartilhou comigo, é um gênio. Gênio. Gênio. Deus. Iemanjá. Kami-sama.




Suicídios Exemplares é sem dúvida um dos melhores livros toujours na minha vida. Ao falar de se matar, Vila-Matas cria microcosmos absolutamente originais, riquíssimos, afundados em urgências palpáveis, cheio de graça, maldade, magia, uma pura inspiração. Cada conto é um universo criado para um personagem que existe, que vive em algum lugar, vive de verdade, não pode ser imaginação. Assim como o Milan Kundera nos Risíveis Amores, com os suicídios Vila-Matas ganha para mim uma qualidade de Deus. Deus, não como voador, mas Deus enquanto aquele que é detentor de TODAS AS VERDADES DO MUNDO! Tudo que ele fala é a verdade absoluta!

São vários contos, mas 5 deles são absolutamente obrigatórios para quem é devoto da arte das palavras. Vou falar particularmente de dois deles, que são absurdos de tão incríveis.

O primeiro chama ''As Noites da Íris Negra". Vou transcrever o trecho inicial, trecho com o qual me identifico assustadoramente:

"Escuto as ondas enquanto sinto que toda a tarde cabe em um olhar, em um só olhar de sossego. Mesmo que só a morte me atraia, devo reconhecer que estou bem aqui, em Port del Vent, tão perto da vida. Estou bem aqui, em minha terra e junto ao mar, do qual nunca deveria ter me afastado tanto. O mar sempre me deu- escuto agora seu rumor enquanto fumo estirado na cama- a sensação de ser algo assim como um corpo único, e isso me tranquiliza. Gosto muito do mar. Estar perto mar, sobre o mar, pelo mar. Sinto diante dele uma sensação de liberdade, provavelmente enganosa, mas que deve ser levada em conta: a ilusão de viver."

Esse conto narra a história de um casal em uma cidadezinha às voltas das causas da morte do pai da moça, e descobrindo em uma trama G-E-N-I-A-L como funcionava a vida de alguns homens deste lugar. Nunca esqueçamos: "Morreu com dignidade. Sua sombra voa.


O outro conto, este que amei ainda mais, chama-se "Uma invenção muito prática". Mostra o conteúdo de uma carta que uma mulher escreve para uma antiga vizinha que era amante do seu marido falecido. É inacreditável que tenha sido escrito por um homem. A histeria feminina pulsa em cada letra de cada palavra. O texto todo parece gritar em coro: MAAAA-LUUU-CAA.
A srta.Remetente é de uma perversidade e de uma irritação tão honestas que é impossível não se apaixonar por ela. Ela escreve da forma mais calma e polida e então, não mais que de repente se dirige a essa ex-vizinha como: ''minha cara esponja-de-rum" "meus vizinhos açougueiros aquáticos'' ''Sua Rouba-maridos''. É Maluca, maravilhosa! Ela constrói questionamentos e cria imagens sobre o tédio do mundo de forma genial. E então, lá pelas tantas, uma pergunta absolutamente imprescindível: "Onde vão parar as perucas quando as pessoas morrem?"

Nos outros contos temos a presença do Diabo (?), uma dona de casa trabalhadora de museu aniversariante maravilhosa, um escritor com a convicção de ser humilde, um travesti infantil encantado pelos mistérios de uma mendiga!!! AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!

Enrique Vila-Matas, para sempre no meu coração.



Maravilhoso! Te amo!


Ps: Próximo post, Gertrude Stein e a ''autobiografia'' magnífica da sua marida.

Charme, piscadela e um cigarro bem posicionado




Quando a conexão de uma pessoa com um autor é plena o livro amado se torna uma extensão de quem o ama. Uma extensão mesmo, de verdade. Uma tradução mística além de explicações científicas ocidentais! O Grande Gatsby é o livro máximo da ''Joie de vivre''. Assim como minha querida Mariela é a encarnação da Joie de Vivre!!!





Que maravilha! Literatura bem vestida e cativante é daquelas coisas que fazem da existência algo realmente espetacular. Eu não sei como passei todos esses anos sem viajar pelos salões elegantes e drinques impecavelmente preparados do universo do sr. Fitzgerald! Eu me encanto com o poder de um autor de transformar palavras em uma névoa inebriante, e nesse caso, uma névoa que emoldura olhares maliciosos, se mistura à fumaça de cigarros cheios de coreografias e invade festas com pessoas lindas, elegantes, jovens, ricas, pessoas que nascemos para ser.

Vou transcrever uma descrição que é das coisas mais deliciosas que já li:

"Sorriu com um ar de compreensão- muito mais do que compreensão. Era um daqueles sorrisos raros com uma qualidade de eterna reafirmação, que a gente encontra umas quatro ou cinco vezes na vida. Ele se defrontava- ou parecia se defrontar- com todo o mundo externo por um instantee então se concentrava em você com uma parcialidade irresistível a seu favor. Ele o entendia na medida em que você desejava ser entendido, acreditava em você como você gostaria de acreditar em si mesmo e lhe garantia que guardava de você a impressão que, à melhor maneira, você esperava passar."

Que sorriso é esse!!! Deus do céu!!

Páginas que deslizam, voam pelos nossos dedos e sem percebermos, o livro chega à frase final....voltamos à realidade. Não mais casarões, amores do passado, vestidos flutuantes... Ainda bem que tenho no meu celular o telefone de uma legítima moça do Jazz, sempre disposta para tomar um drink e tornar o mundo pelo menos um pouco mais charmoso.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Caveira Doce



Às vezes um livro nos chama do além, das sombras ele nos captura, se enrosca nas nossas mãos e nos possui como o encosto exu caveira das macumbeiras pobres de porto alegre! Esse foi exatamente o caso de Pedro Páramo de Juan Rulfo na minha vida. Dormi as últimas noites sempre com um esqueleto ao meu lado, e esse livro me despertou ainda mais amor por ter sido meu companheiro de viagem pelo Rio de Janeiro, agora no início do mês, uma verdadeira expedição pela terra do descompromisso, da beleza, da alegria e da leveza!




A história ultra fragmentada é narrada no fluxo de um rio dos mortos mexicano! Em busca do pai abandonador, o protagonista vai ao interior do México e acaba em uma cidadela macabara, encantadora e de uma riqueza magnética inesquecível! Os diálogos e a narração dos acontecimentos é impregnada de natureza e de charme. Toda a hora o "vento" faz alguma coisa, ou a "lua" demonstra sua influência, também o "cavalo", as velhas fofoqueiras, é sério, FOI FEITO PRA MIM! hahahahahaha!!!

Uma das frases mais geniais:

''É que alegria cansa."

Perversões diversas, amores puros, vingança, maldade, redenção, caixões vizinhos, masculinidade que transborda nas palavras.

Genial! Festa dos Mortos Aí vou eu!

Séculos sem postar...




Ahhhh que ódio de mim mesmo por ter ficado tanto tempo sem postar. O que aconteceu foi o vestibular. Resolvi estudar porque realmente quero passar e agora espero que minhas horas de sofrimento resultem em um passaporte para um mundo universitário repleto de possibilidades plurais e mágicas em todos os aspectos!!!

Nesses tempos passados deixei de escrever sobre coisas maravilhosas que li, e essa não-escrita logo após a leitura faz com que o comentário posterior careça de paixão, escrever depois que o furor galopante que me invade depois da última frase passou não faz justiça aos livros, por isso vou me ater a uma duas frases sobre cada uma das preciosidades que me acompanharam nos últimos meses...


Bartleby, o Escrivão: Sensacional, um triunfo da simplicidade. Conheci a maravilha que é o minimalismo na literatura. Além de ter compreendido nas palavras do Melville o que nos impede de fazer alguma coisa a respeito de algo abominável que nos incomoda em cada centímetro de corpo. Eis a explicação, obrigatória a sua transcrição:

"É tão verdadeiro, e ao mesmo tempo tão terrível o fato de que, ao vermos ou presenciarmos a miséria, os nossos melhores sentimentos são despertados até um certo ponto; mas, em certos casos especiais, não passam disso. Erram os que afirmam que é devido ao egoísmo inerente ao coração humano. Na verdade, provém de uma certa impotência em remediar um mal excessivo e orgânico. Para uma pessoa sensível, a piedade é quase sempre uma dor. Quando afinal percebe que tal piedade não significa um socorro eficaz, o bom senso compele a alma a desvencilhar-se dela.''

Cão sem Plumas: Meu primeiro livro de poesia que realmente me tocou. Não é bonitinho?!
Fiquei absolutamente encantado com a amizade que ele tem com as palavras, é uma relação linda, ele constrói umas imagens, ele dá forma a coisas que eu achava intraduzíveis!!! ''As Nuvens" "O Fantasma na Praia" e "Cão sem Plumas" são as coisas mais lindas do mundo!!!

Antes do Baile Verde: Leitura de vestibular. Peguei pra ler com certa resistência. GEEEEENTE! Sensacional! Lindinha, Linda! Poética, madura, completamente dona do seu texto. O conto do irmão feio, o conto do marido que se vê em um cartão postal, e especialmente o conto da mulher que toma chá esperando uma possível amante de seu marido em um cenário que parece ser o inventor da palavra ''idílio'', são as coisas mais impressionantes. Depois li ''A Pomba Enamorada'', conto contido em O Seminário dos Ratos. Retrato genial do amor psicopata!!


Na Sala com Danuza: Eu tava mega maluco, precisando de risada, de maledicência! Passei uma tarde de fofoca e riqueza!!

Fogo Morto: Me apaixonei pelo mestre José Amaro, seu ''lobisomensismo'', os boatos de que ele comia a filha, o mau humor eterno!! A paisagem desértica, o vento, a lua, os cheiros!!! Todas as três partes do romance são ótimas, é realmente um mergulho total e indefensável!

Aids e Suas Metáforas: AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!! Susan Sontag minha amiga querida!!! Mergulhei na Aids nos anos 80, ao mesmo tempo que lia esse ensaio incrível assistia a "Angels in America" (MARAVILHOOOOOSO!!) Foram dias em que eu tinha vontade de sair fazendo passeatas pelas ruas dessa nossa província.

Diante da dor dos Outros: Outro ensaio da Sontag, dessa vez sobre o impacto das imagens de violência (em especial as de guerra) sobre as pessoas. Parece loucura, mas foi uma leitura deliciosa.

A morte e a morte de Quincas Berro D'água: Meu eterno amante e uma noite de leitura frenética, acompanhando a última farra de um defunto feito de água, uma celebração da vida. Me senti traduzido em cada um daqueles marginais pinguços.

A Volta do Parafuso: Quanta elegância tem esse Henry James. Fantasmas (hipotéticos ou não) bélissimos (um deles ruivo!), crianças assustadoras, uma casa de campo, despertares na madrugada. Um bombonzinho de névoa e paranóia!


Viva ao fim das provas!!! Agora estou livre!!!


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Maria Bethânia


Acabei de voltar do show. Foi o melhor dia da minha vida.!!!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Irmãos

As relações fraternas me fascinam. Também não podia ser diferente, tenho um irmão gêmeo, uma irmã melhor amiga, uma irmã resolvedora de problemas, um meio-irmão golpista e um outro meio-irmão bebê morto! Meu universo é riquíssimo em experiências com os meus irmãos e me considero felicíssimo pelos três irmãos que tenho. Essa vivência torna os livros que tratam de tais relações bastante caros ao meu coração e ao meu senso crítico. Li sem premeditação dois livros que tem a dinâmica fraternal como centro de suas tramas.

O primeiro foi Dois Irmãos, Miltom Hatoum, e o segundo O Jardim de Cimento, Ian McEwan. As duas narrativas se mostraram muito familiares ao meu coração, Hatoum fala sobre a relação dos irmãos gêmeos e McEwan sobre o microcosmos vivido por quatro irmãos, dois meninos e duas meninas!




Eu li com grande prazer Dois Irmãos, achei a construção narrativa muito boa, os cenários, as cores, tudo bastante interessante, eu tenho uma quedinha bem grande pelo étnico. Porém os irmãos gêmeos propriamente não me despertaram grande admiração. O antagonismo é deveras literal, Omar é um escroto, conquistador, bêbado, mimado, burro, e Yaqub é um silencioso, trabalhador, honesto, bem sucedido, esforçado. Acho que a riqueza do livro se dá longe dos proveaveis protagonistas. A irmã Rânia com suas vontades incestuosas, a mãe Zana e sua preferência pela cria que nasceu fragilizada e a Índia Domingas (nome delicioso) são todos muito ricos, complexos e humanos. Os dois irmãos de fato são carentes de verdade, de alma.


O Jardim de Cimento me deixou assombrado. Fiquei chocado com o talento do escritor. Foi o primeiro romance de McEwan (amo primeiros livros) e é escrito de forma não menos que genial. Existem cenas absurdamente reais, as brigas, a crueldade que um irmão se permite em empregar com o outro, as bizarrices de cada um que entre irmãos não precisam de máscaras, é tudo muito palpável.

A maneira como ele escreve em primeira pessoa, me faz realmente acreditar naquele menino de quatorze anos. E todos os personagens tem a maturidade e a profundidade emocional condizente com a sua idade. É sensacional.
Claro, meu amor pelo livro deve-se também por ser ele altamente macabro, estranho, sexual, e muito, muito honesto. Por mais bizarras que sejam as cenas (e tem cenas bizarríssimas) elas acontecem tão naturalmente que se tornam perturbadoramente reais.

(Ian McEwan...seu pervertido!)

Eu adoro os amores e vontades "erradas". Acho incesto, incesto de verdade, irmãos amantes, inegavelmente fascinante!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Doce de Pelotas


Eu nunca fui muito movido pela poesia. Acho que mais por preguiça do que por constituição genética. Há um tempinho saiu o livro "Trabalhar Cansa" do Cesare Pavese, que é um livro de poesia que quando foi lançado foi encarado de forma bem maligna pelo povo da cultura da época. Eu li alguns poucos trechos e gostei bastante. Descobri depois que o lançamento era uma parceria da Cosac Naify com a 7 Letras e que outros títulos iriam ser lançados. Eu tenho uma implicância tremenda com gente jovem que escreve, ainda mais se essa gente jovem for gaúcha. Eis que achei uma verdadeira delicinha um livrinho lançado desse projeto das editoras, chama Rilke Shake e é de uma autora gaúcha e que ainda por cima faz aniversário três dias depois de mim.

Ela, Angélica Freitas, escreve tão despretensiosa, bem o oposto do que eu imaginei quando li o título. Eu adorei, achei muito divertido, adorei as referências, achei as palavras em língua estrangeira escritas de forma natural e não de forma maquinada como fórmula de conteúdo ausente. Vou transcrever um dos textinhos (digo textinhos porque o livro é pequenino, as páginas, os textos propriamente ditos, são todos diminutos... uma graça!).

"Entro na livraria do bobo.
não tenho dinheiro
e tampouco tenho talento para o crime.

desfilam ante meus olhos
títulos maravilhosos
moribundos de tanto estar
nas prateleiras.

roube-nos, dizem eles.
não aguentamos mais ficar aqui
na livraria do bobo.

quem acreditaria
nesta versão dos fatos?
ajudem-me, maragatos
nesta hora afanérrima
de uma libertadora paupérrima
de livros.

retumba meu coração. retumba
mais que a bateria do salgueiro.
treme o corpo por inteiro
e as mãos já suam em bicas.

ganho a rua, as mãos vazias
e os livros gritam: maricas."

Não é ótimo?! Li o livro todinho, dá pra sentir que ela tem amor pelo livro como instituição, como entidade. Das balas soft à Gertrude Stein e sua bundona, acho que foi um belo agradinho para um dia feio como hoje.

Eu entendo e partilho do sentimento dela em "Rilke Shake" (texto que dá título ao conjunto). Entendo direitinho, só que no meu caso o sabor não é Rilke, e a mistura não se faz com sorvete.